A combinação entre o desmatamento crescente na Amazônia, El Nino 2026 e o aumento exponencial do consumo acendeu um alerta vermelho entre cientistas, ambientalistas e lideranças indígenas.
A pressão global e o que está sendo feito para diminuir a pressão sobre as Plantas da Ayahuasca ?
Nos últimos anos, a ayahuasca deixou de ser um segredo guardado pelas culturas indígenas e comunidades religiosas da Amazônia para se transformar em um fenômeno global. Buscada por turistas do mundo inteiro, celebridades e pessoas em busca de cura espiritual ou tratamentos terapêuticos, a "medicina da floresta" agora enfrenta o seu maior paradoxo: o próprio sucesso coloca em risco a sua existência.
O Gargalo : O cipó Mariri
Para entender a crise, é preciso olhar para a receita da bebida. A ayahuasca é o resultado da decocção de duas plantas nativas da floresta tropical: o cipó mariri (ou jagube) e o arbusto chacrona.
Diferente de outras plantas de cultivo rápido, o cipó mariri nativo leva anos, às vezes décadas, para atingir a maturidade e a espessura ideais para o preparo do chá. Com a explosão do chamado "turismo xamânico" e a multiplicação de centros urbanos de rituais, a demanda por essa matéria-prima disparou a níveis sem precedentes.
Extrativismo Predatório vs. Cultivo Sustentável
Enquanto algumas religiões institucionalizadas mantêm plantios próprios e controlados há décadas, grande parte do mercado informal recorre ao extrativismo predatório. Mateiros e coletores informais entram na floresta nativa para arrancar o cipó de forma desordenada, muitas vezes sem respeitar o tempo de regeneração da planta ou comprometendo a sobrevivência da espécie na região.
O resultado é visível. Em áreas de fácil acesso ao redor de capitais como Rio Branco e Porto Velho, o mariri selvagem praticamente desapareceu. Hoje, os coletores precisam se embrenhar cada vez mais fundo na mata virgem para encontrar exemplares adultos.
O Impacto do Desmatamento
Somado à pressão do consumo, o avanço do desmatamento na Amazônia — impulsionado pela pecuária, exploração madeireira e expansão agrícola — destrói o habitat natural dessas plantas. O fogo e as motosserras não escolhem espécies; ao derrubar a floresta, destroem-se também os ecossistemas complexos onde o mariri e a chacrona se desenvolvem de forma sinérgica com as outras árvores.
Resistência e Preservação: A Força do Terceiro Setor
Diante do risco real de desabastecimento e colapso ecológico, a sociedade civil e organizações não governamentais começaram a se articular para proteger esse patrimônio biocultural. Iniciativas inovadoras mostram que o futuro da ayahuasca depende diretamente do cultivo sustentável e da governança ambiental.
O Instituto SOS Ayahuasca surge como uma força de destaque nesse cenário, atuando na proteção, preservação e pesquisa das plantas sagradas. Por meio de projetos como o "Projeto Âncora (Raízes do Amanhã)", mantido em uma área de mais de 36 hectares no Acre, o instituto foca na salvaguarda de germoplasmas nativos, na pesquisa científica e na educação ambiental. A instituição constrói pontes valiosas conectando uma rede global de cultivadores, pesquisadores, voluntários e comunidades tradicionais.
Na mesma linha de regeneração, o Projeto Daime Eterno (coordenado pelo IDAAM) foca seus esforços no Vale do Juruá e em comunidades tradicionais da Amazônia, como no Rio Crôa. Com a meta ambiciosa de plantar 100 mil mudas de cipó até 2030, a iniciativa utiliza sistemas agroflorestais e o manejo correto, como a instalação de cordas-guias para o crescimento do jagube. O projeto prova que a recuperação de áreas degradadas caminha lado a lado com a segurança alimentar e o fortalecimento socioeconômico das comunidades ribeirinhas e indígenas locais.
Cultura em Risco e o Papel de quem bebe o chá
Para os povos originários, a escassez das plantas não é apenas um problema ecológico, mas uma ameaça direta à sua identidade cultural e espiritual. A dificuldade de acesso à medicina tradicional fere a soberania dos territórios indígenas.
O futuro da ayahuasca dependerá obrigatoriamente da expansão dessas redes de agrofloresta e da conscientização. A expansão da bebida trouxe luz, curas e insights para milhares de pessoas ao redor do mundo. Agora, cabe a esse mesmo público consumidor assumir uma postura corresponsável, buscando compreender a origem do que consome e apoiando de forma ativa as iniciativas que garantem a floresta e suas medicinas em pé.
por Paulo Fernandes.
FONTE: Pesquisas na internet e depoimentos.